Entrevista com Lorenzo Barbati, diretor executivo do GVAngels

21 de janeiro de 2026
·4 minutos
Depois de um ciclo marcado por excesso de liquidez, narrativas infladas e crescimento a qualquer custo, 2025 consolidou uma mudança estrutural no jeito de decidir. Como resume Lorenzo Barbati, diretor executivo do GVAngels:
“2025 não marcou uma retomada clássica do venture capital. Marcou algo mais profundo: uma mudança estrutural de critério. O capital não desapareceu. Ele ficou mais seletivo, mais exigente e menos tolerante a ambiguidade.”
O que mudou não foi apenas o volume de dinheiro disponível, mas o tipo de decisão que ele aceita financiar. O mercado aprendeu, como diz Lorenzo, “da forma mais dura, que crescimento sem eficiência não é estratégia, é aposta”.
Unit economics voltaram ao centro da decisão, governança deixou de ser tema só de rodadas maduras e o follow-on passou a ser consequência de mérito, não de inércia.
Esse movimento aparece também nos dados. A Pesquisa sobre Investimento-Anjo no Brasil 2025, do Observatório Sebrae Startups, mostra que 47% dos investidores-anjo não conseguem mensurar o ROI das startups em que investiram. Isso aumenta a pressão por métricas claras, disciplina de capital e estrutura desde o primeiro cheque.
Para 2026, Lorenzo sugere olhar menos para valuation e mais para sinais estruturais:
capacidade real de gerar caixa ou provar caminho claro para isso;
disciplina de capital;
fundadores capazes de dizer “não” a crescimento mal precificado.
O Diretor Executivo reforça que o próximo ciclo não premia quem cresce mais rápido, mas quem cresce com intenção:
“O maior erro do investidor-anjo é achar que o investimento começa quando aparece uma startup interessante. Ele começa antes, com organização."
Sem tese, o investidor vira refém de uma boa narrativa. Sem visão de portfólio, ele acerta uma empresa e erra o próprio processo. E sem inteligência coletiva, continua tomando decisões mais por impulso do que por critério.
1. Tenha uma tese clara, inclusive do que você não vai investir
Tese é definir, antes de qualquer conversa: estágio, ticket, setores, perfil de fundador e lógica de saída. Isso não garante acerto, mas reduz erro. E erro custa caro quando se pensa em portfólio, não em aposta isolada.
2. Estruture portfólio e follow-on desde o início
Muitos anjos não perdem dinheiro porque erram startups, mas porque não reservam capital para as que dão certo. Entrar sem pacing definido, sem reserva de follow-on e sem visão de conjunto é um erro clássico. Investir é construir um portfólio ao longo do tempo, não escolher uma empresa e torcer.
3. Troque feeling por processo
“Investir sozinho virou desvantagem competitiva”, diz Lorenzo. As melhores decisões hoje vêm de inteligência coletiva, dados de portfólio, debate estruturado e leitura compartilhada de risco. O investidor de 2026 precisa menos de instinto e mais de processo.
4. Diferencie narrativa de tração Pitch bom não paga retorno
Tração real, sim. Métricas vaidosas, crescimento subsidiado e storytelling sem dado operacional continuam enganando investidores. Para 2026, a pergunta central é: esse negócio funciona “sem maquiagem”?
5. Leve governança a sério desde cedo
Governança não cria valor diretamente, mas evita destruição de valor. Cap table confuso, acordos frágeis e expectativas desalinhadas custam rodadas inteiras depois. Esperar crescer para organizar a casa é um risco alto.
6. Invista dentro da sua competência
Curiosidade não é tese. Investir em setores que você não entende aumenta risco, não retorno. Lorenzo defende que o investidor deve usar sua bagagem profissional como vantagem competitiva, não como detalhe secundário.
7. Desconfie de negócios que vivem da “próxima rodada”
Startups que dependem do próximo cheque para existir não tem negócio, tem esperança. Em 2026, o mercado será menos tolerante a modelos que só sobrevivem com capital novo e mais exigente com negócios que provam sustentabilidade.